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Macedo de Cavaleiros // Azibo – um oásis no Nordeste Transmontano Por: Carla A. Gonçalves / Secção: O Olhar / 15-07-2010 · 2 comentário(s) Imprimir Enviar a um amigo

Foto: Carla A. Gonçalves Albufeira do Azibo é procurada por milhares de pessoas durante todo o Verão, tendo a praia fluvial mais galardoada em toda a Europa, símbolo da qualidade ambiental que ali se preserva
De uma paisagem transformada pelo homem para suprir as necessidades de água às populações e à actividade agrícola, nasceu um santuário de biodiversidade e um local de excelência para o desenvolvimento do turismo

Quando o visionário engenheiro Camilo Mendonça pensou em construir a barragem do Azibo, em Macedo de Cavaleiros, certamente não terá imaginado o potencial turístico e ambiental que estava prestes a nascer. Localizada numa área marcadamente árida, a albufeira do Azibo veio transformar toda aquela paisagem e ajudar à criação de biodiversidade que, de outra forma, nunca existiria naquele local. Em verdade, se a construção da barragem do Azibo tivesse sido sujeita a estudos de impacto ambiental, como acontece hoje em dia, provavelmente não teria sido aprovada, pelo menos não o seria tal e qual como a conhecemos hoje. Construída nos anos 70, a barragem foi pensada para suprir as carências de água do concelho macedense e para servir a agricultura, através da rega por gravidade para todo o vale de Macedo de Cavaleiros, Brinço, Cortiços e Chacim. Quando o empreendimento foi concluído, em 1982, previa-se que demorasse cerca de um ano a encher completamente, mas o rigor das chuvadas que então se fizeram sentir, provocaram um rápido enchimento da albufeira, em menos três de meses, alagando uma área superior àquela que tinha sido pensada. As operações de limpeza não foram concluídas a tempo, tendo sido inundados vários campos com sobreiros, lameiros, bem como algumas corriças de animais. Hoje sabe-se também que a barragem veio inundar alguns locais de interesse arqueológico significativo e, de uma maneira geral, perturbar o ambiente natural daquela zona. Contratempos que nunca foram contabilizados devido à ausência do estudo de impacto ambiental mas que, a longo prazo, vieram a ser ultrapassados por todo um conjunto de factores que, hoje, tornam o Azibo um local de excelência, em termos de biodiversidade e turismo, e um local que mantém os objectivos para o qual foi criado – a rega agrícola e o abastecimento público. É que, a grande massa de água, (55 milhões de metros cúbicos), alimentada pelo rio Azibo e por pequenos ribeiros, veio alterar toda uma paisagem marcada pela aridez dos verões muito quentes e invernos rigorosos, criando um microclima mais próximo do Mediterrâneo, alterando a paisagem e favorecendo o aparecimento de outros ecossistemas. Quase simultaneamente, as populações locais e da região viram na albufeira um pólo de atracção. Vivia-se, então, nos anos 90, ainda o local não era paisagem protegida e nem sequer havia uma estratégia pensada para a utilização e fruição dos espaços públicos idêntica à dos tempos de hoje. Ainda assim, as pessoas acorriam ao local, atraídas pelo enorme espelho de água. Construíram-se então os acessos, o cais de embarcação e um parque de merendas. No final dos anos 90 foi inaugurada a primeira praia fluvial. Foi também nessa altura que começaram a ser feitas as primeiras abordagens científicas ao ecossistema do local e decidiu-se avançar com a criação da Paisagem Protegida da Albufeira do Azibo.

Azibo – “um laboratório de experiências”

Esse passo foi fundamental para a protecção e conhecimento da biodiversidade do local e fez do Azibo uma espécie de “laboratório de experiências no que diz respeito às áreas protegidas”. É que o Azibo é uma Paisagem Protegida que só existe como tal pela construção da barragem, conforme notou Manuel Cardoso, presidente da comissão directiva da Paisagem Protegida da Albufeira do Azibo. “Não fosse o facto de ter sido construída uma albufeira e não conheceríamos a Paisagem Protegida do Azibo tal como ela é hoje. Teríamos uma paisagem na orla daquilo que é a Rede Natura 2000 do monte Morais, mas não seria com esta biodiversidade que temos hoje”. Numa área de cerca de quatro mil hectares coexistem uma diversidade de aves migratórias que fazem ali escala e que tornam aquele espaço como um ponto privilegiado para a observação de diversas espécies. Há ainda várias espécies de mamíferos, répteis, anfíbios e peixes possíveis de observar durante todo o ano através de actividades direccionadas para o efeito, como explicou Eugénia Gonçalves, professora destacada na Ecoteca de Macedo de Cavaleiros, uma das entidades organizadoras de actividades no local. “Ao longo de todo o ano são organizadas actividades que permitem conhecer melhor a fauna e a flora da Paisagem Protegida do Azibo. Mas para a observação da fauna é necessário ter alguma paciência”, apontou. É que se alguns mamíferos permitem a aproximação razoável do ser humano, ou são passíveis de observar ou ouvir, outros há que têm comportamentos nocturnos e que requerem maior “investigação” para serem identificados. “Ensinamos os visitantes a reconhecer alguns mamíferos através da identificação dos seus excrementos ou do rasto porque são difíceis de observar”, explicou Eugénia Gonçalves. Já a flora é marcada pelas formações de sobreiro e manchas de carvalho negral e carvalho-cerquinho, mas não só. Para além de uma grande representatividade de espécies denominadas “Quercus” e de toda uma flora que é mais tradicional ocorrer nesta região, há ainda as orquídeas silvestres, que aparecem durante os meses de Maio e Junho, bem como os narcisos ou as tulipas bravas, a par dos fungos que aqui também têm forte expressão. Um mundo de biodiversidade que é dado a conhecer ao visitante através de trilhos, devidamente sinalizados e interpretados, que fazem ainda a aliança entre o que é o património natural e o património humano e cultural. É o caso do trilho dos Caretos, que passa pela casa do Careto, em Podence; ou o trilho dos Fornos, que destaca a recuperação dos fornos de Salselas. Depois há ainda o trilho Ricardo Magalhães, mais voltado para a valorização natural; o trilho Quercus, onde estão presentes as espécies “quercus”, como o carvalho negral ou o sobreiro, permitindo observar onde o rio Azibo entra na paisagem protegida. O visitante pode ainda percorrer a ciclovia, entre Macedo de Cavaleiros e a Albufeira, ou circundar grande parte das margens.

A praia mais galardoada do país e da Europa

Ao local já lhe chamaram até um “manual do ambiente por si só”, a que acresce ainda o facto de ter disponíveis, hoje em dia, duas praias com bandeira azul, uma delas galardoada consecutivamente desde 2003, sendo a praia que, até hoje, mais bandeiras azuis teve atribuída em Portugal e na Europa. Factores que atraem ao local milhares de visitantes, todos os Verões, e que levam a câmara municipal a apostar no desenvolvimento turístico daquele local. Em volta do grande lago foram depositadas toneladas de areia e construídos equipamentos públicos para fruição e lazer. Uma nova praia, do outro lado da margem poderá nascer, no próximo ano, de forma a possibilitar um melhor acesso a partir da cidade de Macedo de Cavaleiros e a garantir a qualidade de excelência do local, conforme apontou o presidente da câmara, Beraldino Pinto. “A nova praia vai permitir manter a qualidade de prestação de serviços aos milhares de visitantes que aqui vêm”, apontou. O alojamento continua a ser uma lacuna que a autarquia pretende suprimir. Os visitantes podem ficar nas muitas unidades de turismo de habitação existentes no concelho bem como nas unidades de alojamento da cidade. Na cidade está ainda em construção um novo hotel mas Beraldino Pinto confessa que ainda há “dificuldades em corresponder a toda a procura”. O alargamento da oferta pode passar pela construção de um parque de campismo, uma infra-estrutura que poderá vir a ser construída por privados, desde que autorizada pelas entidades que gerem a Paisagem Protegida. Este desenvolvimento terá que seguir os regulamentos que vierem a ser ditados pelo Plano de Ordenamento da Paisagem Protegida da Albufeira do Azibo, um documento que se encontra actualmente em apreciação e discussão e que Beraldino Pinto espera que venha a compatibilizar as diferentes utilizações que têm sido dadas àquele espaço.

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2 Comentários Feed

Ana Carlos · escreveu em 06-08-2010 às 23:49:20
É bom mesmo que existam estes espaços, e o Azibo é mais uma das maravilhas existentes no nordeste transmontano, tem uma paisagem única e maravilhosa....é um local que merece ser visitado.
Simplesmente fantástico...recoenda-se a quem ainda não conhece....
Fernanda Vinhais · escreveu em 17-08-2010 às 13:28:57
São empreendimentos destes que fazem falta por quase todo o país, sobretudo no interior. Um bom exemplo de como podemos proteger o que é nosso, explorar o potencial turistico, sem descaracterizar a paisagem.
Parabéns a todos aqueles que têm contribuido para que este "ninho" da natureza.
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