Bragança // Arte para o povo Por: / Secção: O Olhar / 08-07-2010 · 1 comentário(s) Imprimir Enviar a um amigo
Um dos maiores pintores do país, o Mestre Júlio Pomar, acedeu a expor no Centro de Arte Contemporânea Graça Morais um vasto conjunto de obras que fazem uma antologia de toda a sua carreira artística, iniciada nos anos 40. A verdadeira dimensão desta exposição e a sua importância é algo a que, talvez, só futuramente nos possamos reportar, pois, como lembra Graça Morais, “o que fica das civilizações é a sua obra cultural”. É que a obra de Júlio Pomar permite ler o século XX, como apontou Laura Castro, investigadora de Belas Artes, que considera mesmo que “é possível fazer um curso de História da Arte a partir de Júlio Pomar, pois a sua obra explora e representa todas as possibilidades da pintura, desde a representação, ilusão, composição, decomposição, quase abstracção...”.
A dificuldade em passar a mensagem talvez esteja relacionada com a natureza da obra artística, como aponta o próprio Júlio Pomar. “Quando as pessoas falam entre si, há uma linguagem comum – a palavra. O pintor é gago para as palavras, está mais aberto à visão, lida com as imagens”.
Ainda assim, o grande Mestre, um dos maiores pintores portugueses do século XX, com um amplo reconhecimento internacional, aceitou o convite de Graça Morais e veio a Bragança, cidade que não conhecia e onde foi também homenageado. Os afectos, esses, foram a base de tudo.
“Isto começou porque uma “pequena” que tinha jeito para o desenho, me achou graça”, brincou, remetendo para a longa amizade com Graça Morais, uma artista que se fez saindo da terra natal, contra a vontade da mãe, que não queria que ela “morresse de fome”. Hoje, Graça Morais, consagrada pintora portuguesa, presta homenagem a um amigo e a um artista que a inspirou, pese embora as obras de um e outro sejam completamente distintas.
“O Júlio Pomar é um homem que admiro muito e esta exposição mostra como é que um artista vai criando ao longo da vida e como se pode ser sempre tão exigente, lutando contra as dificuldades e nunca estando satisfeito”, apontou Graça Morais. É assinalável a liberdade com que o pintor pega nos materiais e olha o mundo, desconjuntando a realidade, transformando-a, nunca estando plenamente satisfeito com os seus dotes ou com o seu trabalho, e tentando sempre reencontrar algo mais. Aos 84 anos, continua a pintar, cada vez mais demorando mais tempo com cada quadro, permanentemente insatisfeito, mas pintando sempre.
Com simplicidade, Júlio Pomar assume que prefere até vir expor a Bragança, fora dos circuitos “habituais” em que “o público já sabe tudo”. Sobre a sua obra espera que gere discussão e que sirva para “abrir cabeças” e lançar dúvidas.
“A cultura é um meio de conhecimento que, ao invés de nos dar certeza, tira-as”, considerou.
O Centro de Arte prestou-lhe ainda uma homenagem, na qual marcou presença o escritor Vasco Graça Moura, amigo de longa data, com Laura Castro, havendo ainda lugar a um momento musical da autoria de Pedro Caldeira Cabral. Uma homenagem que Vasco Graça Moura considerou até surrealista por nela ter marcado presença o academista Costa Andrade, acompanhado pelo ilustre Adriano Moreira.
“É surrealista vir a “Academia” irromper pelo espaço de Júlio Pomar, que sempre se caracterizou pela irreverência e anti-academismo, aqui em Bragança”, brincou.
Mas Júlio Pomar não é um homem de homenagens e sobre isso lembra até um episódio do seu passado, quando num almoço com amigos de várias gerações, alguns deles mais velhos, disse que eram todos uns “putos” que estavam a começar, criando um ambiente gélido porque uns já se consideravam “senhores” e outros “consagrados”.
Ao Mensageiro, o pintor assume, “por ridículo que pareça”, que se sente “um puto a começar e quase sempre a jogar o tudo por tudo”.
“Tenho alguma dificuldade em fazer entender isto porque as pessoas têm tendência para pensar que o artista vive num mundo à parte, sempre com altos raciocínios e estas categorizações da arte, como o abstraccionismo, o expressionismo e todos esses “ismos”, dificultam a compreensão de tudo isto”.
Ao longo de toda a sua vida, Júlio Pomar incutiu à sua arte uma dimensão de comprometimento social e político muito forte documentada nas primeiras obras, onde é patente a passagem da ditadura à democracia. Mas da sua obra, de mais de seis décadas, é sobretudo surpreendente a multiplicidade de linguagens, temas, técnicas, materiais e suportes usados, mostrando a constante mudança e adaptação de um homem/artista em permanente interrogação sobre o mundo que o rodeia e com “um apetite de animal feroz”, como o próprio assume.
Os diversos campos de experiência que explorou e continua a explorar são valorizados nesta Antologia, organizada por Jorge Costa, director do Centro de Arte e comissário da exposição. É uma pluralidade que mostra o artista como experimentador, ao invés de produtor, e que surpreendeu o próprio Júlio Pomar que veio, assim, a Bragança redescobrir algumas das suas obras.
“Limitei-me a uma posição de observador”, assumiu.** “Por norma prefiro e procuro manter-me nessa posição porque me parece que possa ser mais produtiva do que estar a seguir uma ideia que eu tenho sobre o meu trabalho e a impô-la”**. Uma modéstia que lhe permitiu ter uma “visão nova” sobre obras que já não assume como suas, pois nelas já não tem poder de intervenção.
Em cada sala, em cada parede, há um exemplar representativo de cada momento, um trabalho notável da responsabilidade de Jorge Costa que deixou surpreendido Júlio Pomar e a própria Graça Morais.
“Esta exposição, pela forma como está organizada, devia ser conhecida em todo o país pois é fundamental que o país se aperceba do que acontece aqui”, apontou a pintora, desafiando os portugueses a viajar até Bragança, sobretudo numa altura em que a crise não permite grandes viagens para o exterior.
Esta capacidade mobilizadora e interventiva que o Centro de Arte Contemporânea tem tido, ao longo destes dois anos, pode demorar ainda a ser reconhecida mas os números começam a falar por si. A média mensal de visitantes situa-se na ordem dos 1300, um valor surpreendente para uma cidade como Bragança. Mas mais surpreendente é olhar para o programa expositivo deste pólo cultural onde já estiveram desde os nomes históricos da Arte Contemporânea Portuguesa aos artistas conceituados, bem como aos nomes emergentes.
Junto das escolas, junto do público em geral, tem sido realizado todo um trabalho que assenta na promoção da criatividade, da imaginação, da redescoberta, da abertura de pensamento. Diz Júlio Pomar que deve ser “terrível” ter um pensamento definido ou não ter indecisões, ele que, ao longo da sua vida, quis fazer várias experimentações. “Até podiam caricaturar e dizer que eu não sei o que ando a fazer”, brincou, desfazendo “mitos” e ideias pré-concebidas sobre o que deve ser a arte ou a cultura porque a arte é para o povo e o povo somos todos nós.

1 Comentário
Nada. Simplesmente serve-se dele para ganhar o seu. Perguntem-lhe quanto dinheiro já cá deixou excptuando algumas obras por "obrigação" a uma pessoa que lhe catapultou a carreira e que é da nossa terra. Tenho dito...