. // O Mal no interior da Igreja Por: / Secção: Editorial / 21-05-2010 Imprimir Enviar a um amigo
.De entre as viagens que o Papa tem feito, duas ficaram marcadas pelas declarações que proferiu aos jornalistas no avião. Uma, negativamente, a visita a Angola, em que Bento XVI se referiu à questão do preservativo na conversa com os jornalistas e gerou um rumor que abafou completamente todas as outras intervenções no continente africano, nomeadamente a condenação veemente da corrupção. Foi a primeira vez que a Igreja ergueu a sua voz, de uma forma tão contundente, para denunciar um dos maiores cancros políticos de muitos países africanos, mas como todos estavam distraídos a discutir o problema do preservativo, ninguém se deu conta das palavras corajosas e destemidas do Papa. Já na visita ao nosso país, o diálogo com os jornalistas a bordo do avião arrumou com as questões da pedofilia, dentro da Igreja, que pairavam sobre as últimas deslocações do sucessor de Pedro a outros países, como foi o caso de Malta, em que a agenda dos “media” foi completamente dominada pelos escândalos dentro da Igreja Católica. De facto, Bento XVI limitou-se a repetir o que já afirmou variadas vezes, nomeadamente na “Carta aos bispos irlandeses”, mas só agora é que os meios de comunicação social lhe deram o devido destaque, talvez pela ligação dos escândalos da pedofilia ao terceiro segredo de Fátima. O então Cardeal Ratzinger reconheceu que o terceiro segredo de Fátima se aplicava aos acontecimentos vividos pelo Papa João Paulo II. O agora Bento XVI não rejeita essa interpretação, mas alarga o seu horizonte de compreensão e aplica-a aos escândalos que têm assolado a Igreja, ultimamente. “A novidade que podemos descobrir hoje, nesta mensagem, reside também no facto que os ataques ao Papa e à Igreja vêm não só de fora, mas que os sofrimentos da Igreja vêm justamente do interior da Igreja, do pecado que existe na Igreja”, disse aos jornalistas, sublinhando mais à frente “que a maior perseguição da Igreja não vem de inimigos externos, mas nasce do pecado na Igreja, e que a Igreja, portanto, tem uma profunda necessidade de reaprender a penitência, de aceitar a purificação, de aprender por um lado o perdão, mas também a necessidade de justiça”. Estas palavras do Santo Padre devem levar cada cristão – e, em especial, os sacerdotes -a fazer um profundo exame de consciência da sua vida para discernir de que maneira o seu pecado e a sua infidelidade ao Evangelho de Jesus Cristo contribuem para o descrédito da Igreja no meio dos homens e mulheres do nosso tempo. No encontro com clérigos, religiosos e seminaristas, em Fátima, Bento XVI apelou aos sacerdotes para que dedicassem uma “particular atenção” aos seus colegas que atravessam momentos de dificuldade e vivem “situações de um certo esmorecimento dos ideais sacerdotais ou a dedicação a actividades que não concordem integralmente com o que é próprio de um ministro de Jesus Cristo”. Nessas circunstâncias, muitas vezes, os sacerdotes em vez de serem os primeiros a ajudar o irmão, são os que mais contribuem para a sua queda. Está na hora de o Presbitério redescobrir e reanimar a sua fraternidade sacramental. Para o Papa “é a hora de assumir, juntamente com o calor da fraternidade, a atitude firme do irmão que ajuda seu irmão a manter-se de pé”. Se assim suceder, seremos certamente mais Igreja.

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