Vila Real – Lordelo // À conquista dos palcos Por: / Secção: O Olhar / 05-03-2010 Imprimir Enviar a um amigo
Apresentam-se como amadores, mas as suas actuações vão mais além do que simples e comuns representações. Ultrapassando as dificuldades de conseguir manter uma equipa ao longo dos anos, o Grupo de Teatro de Lordelo vai dando cartas na arte de represePelos lados da vila de Lordelo, em Vila Real, mora um grupo de teatro que ao longo dos tempos foi ocupando as tardes e noites dos seus moradores. Embora a época não seja de bonança em termos de associativismo, o certo é que os elementos do actual Grupo de Teatro de Lordelo têm dado provas da sua vivacidade e profissionalismo. Contava-se o ano de 1978 quando Joaquim Ferreira decidiu juntar-se ao grupo de teatro, que já proporcionava bons serões, e à direcção do Centro Cultural Lordelense (CCL). Desta junção resultou num boom cultural na localidade. “Nada avançava naquela altura e com os teatrinhos que fomos fazendo esta casa ressurgiu novamente”, sublinhou o actual responsável pelo Grupo de Teatro de Lordelo, Joaquim Ferreira. Encabeçando na altura o nome de Grupo Autónomo Lordelense de Teatro foram caminhando em terra desconhecida, até que chegaram ao ano de 2010. Com actuações consistentes e muita dedicação à causa, os actores do Grupo de Teatro de Lordelo juntam-se em prol de uma mesma convicção: proporcionar bons momentos, ora em tom de drama, ora em tom de comédia. Ainda que tenha nascido exclusivamente para a arte de bem representar, a equipa lançou-se também em actividades viradas para os habitantes. Música, jogos populares e eventos diversos são exemplos da dinâmica que se sente entre os que lutam todos os dias para que a paixão pelo teatro e pelo CCL não acabe. “O teatro em Lordelo já vem de longa data, mas há sempre aqueles interregnos normais e aqueles que desistem.”
Ensaios para bons actores
Juntam-se, apoiam-se, lutam para que o trabalho saia perfeito, embora em teatro tudo possa acontecer quando menos se espera. A cada ano trabalham uma nova peça escolhida pelo ensaiador. Neste momento, são seis os actores que carregam com a responsabilidade de mostrar o que sabem e o que foram aprendendo uns com os outros. “Ensaiar esta gente toda não custa nada, porque já têm muita prática, já sabem a música de cor, são quase como o galo”, frisou Joaquim Ferreira, rindo-se e explicando que todos os movimentos em palco já estão bem decorados. A preocupação que o vai atormentando é a árdua tarefa de seleccionar uma nova história, porque, mencionou, tem de se assemelhar com o actor e com o público a quem se apresentam. “Depois de ler a peça vezes sem conta, distribuo os papéis de acordo com as características de cada um”, ressalvou, adiantando que hoje também actuam “para todo o tipo de públicos”. Já passaram pelo Teatro de Vila Real e por locais onde não havia qualquer palco. “Nós entendemos que todos têm o direito a ver e a sentir o teatro e se não fosse assim nunca poderiam ver uma peça deste género”, reforçou.
Peripécias que marcam
Todos estão sujeitos às partidas do acaso. Durante uma estreia ou nos ensaios, em actuações pelos distritos ou mesmo momentos antes de entrar em cena surge sempre um contratempo ou pequenas situações que não fazem parte da história da peça. Desde a queda de objectos ou um adereço mal colocado, tudo acontece e não apenas aos “amadores”. Também os profissionais e com larga experiência estão sujeitos a ter de recorrer aos improvisos para evitar desvios à peça. A história que deu “mais gozo” a Joaquim Ferreira foi “Cama, mesa e roupa lavada”, uma peça escrita por André Brum, em três actos e com duas horas de duração. Às muitas peripécias que aconteceram, o ensaísta destacou uma. “Num dos encontros de teatro em que participámos, ficámos em primeiro lugar em Lisboa e o prémio era ir ao Teatro de Évora. Dois dias antes, uma das nossas actrizes resolveu lembrar-se que tinha exame naquele dia e não fomos. Só que no dia do exame ficou a dormir e não fez o dito exame. Perdemos o pão e a bola naquele momento”, contou. A cada minuto de conversa foram surgindo muitas histórias e momentos de plena risada incapaz de encontrar fim. Ao som da queda de água, mesmo ao lado do CCL, Joaquim Ferreira salientou que, contrariamente ao que se pensa, “improvisar não é bom”. “É bom para mim que encontro uma solução, mas não é para os outros, porque podemos não dar a deixa como devíamos”, adiantou, relembrando que o teatro “não é individual”, mas um trabalho que se deve fazer em grupo. “Há sempre situações que aparecem e nós rimo-nos delas: ou nos esquecemos ou passamos umas frases ou o outro não disse a deixa e nós andamos sem saber o que fazer”, acrescentou José Carlos Botelho, um dos actores.
O elenco que vai abrilhantando a vila
Não é fácil nos dias que correm constituir uma equipa de actores que se dediquem de corpo e alma ao teatro. Muitas são as escapadelas de lazer, muito menos trabalhosas que ensaiar uma peça ou fazer pequenas digressões pelo distrito e até outras cidades portuguesas. Mas o Grupo de Teatro de Lordelo, actualmente com seis elementos, tem conseguido manter um certo equilíbrio, mas anseiam por mais participantes. Joaquim Ferreira, além de coordenar a equipa e de escolher as peças, também contribui com o seu saber em cima do palco. Já faz teatro há mais de quatro décadas. Começou em Vila Nova, passou por muitos teatros e conheceu muitos artistas, mas tem dedicado a sua vida a Lordelo. As duas peças que mais o marcaram foram “O polícia 28” e o “Gaiato de Lisboa”, mas a que lhe deu “mais gozo” foi a peça que se encontra em cartaz, “E tudo a minha sogra tramou”. “Tive muitas conversas com pessoas que afirmaram que esta foi a mais divertida que fizemos e eu também concordo”, sublinhou. Para José Carlos Botelho, outro dos actores, com o tempo vão-se “sentindo mais à-vontade”, dada a falta de experiência, pois apenas se dedica há pouco mais de três anos ao grupo. “Começou por acaso, como uma experiência, porque não havia pessoas. Não sabia como isto era e no princípio foi um pouco difícil”, justificou. Considerando que o grupo “está melhor agora do que há um ano atrás”, José Carlos Botelho confessou que o melhor do teatro são as saídas. “Se não fosse isso não valia a pena fazer as peças. É o convívio e a representação para as pessoas.” Para que tudo corra às “mil maravilhas”, umas das regras com que se rege é a de “não olhar para o público”. “Às vezes desestabiliza, por isso tentamos não ver ninguém.” Emília Monteiro estreou-se no dia do aniversário do CCL e da peça “E tudo a minha sogra tramou” e segundo vozes da plateia e do próprio ensaiador “fez um papelão”. Sem qualquer experiência na matéria, destacou a “boa empatia entre todos”, o que facilitou muito o trabalho. “Isto é teatro amador. Desde que façamos o melhor que sabemos é o que interessa”, avançou, afirmando que “está para se divertir”. Quanto ao futuro, Emília Monteiro confessou que enquanto a “vida o permitir” irá continuar não fossem os seus “berros e a sua postura” bastante elogiados. Lúcia Sousa, Manuel Veiga e Mila Brigas são mais três actores que integram o grupo. Lúcia Sousa disse que “gosta muito dos ensaios”, mas quando a entrada em palco já tem público é “outra pessoa”. O à-vontade agora é já outro, bem como o nervosismo que já não é tanto como outrora. Já Manuel Veiga é um dos mais experientes, com alguns anos dedicados ao teatro. Para ele é mais importante “decorar o texto” do que a própria interpretação. Mila Brigas começou também há três anos. Ainda que estivesse sempre ligada ao teatro de forma indirecta, Mila Brigas foi iniciando os seus papéis como criada e agora como sogra, mas garantiu que “é chegar e debitar o texto”. “São tantos os nervos que nos esquecemos do público. Mas quando ele responde com risos aí dá muito prazer.” Definiu os ensaios como uma “terapia ocupacional”, onde se pode “desanuviar e dar umas pequenas risadas”. A esta actriz cabe ainda outra particularidade. Com a necessidade de um técnico de som e luz, o grupo de teatro ficava por vezes “pendurado”. O “improviso” voltou a funcionar e foi o filho de Mila Brigas, João Brigas Miranda, de 11 anos, que avançou para os comandos do som e luz em palco. O petiz depressa passou de “improviso” a peça fundamental no grupo.
Amadores apenas na teoria
Manter um grupo de teatro “não é nada fácil”, ainda mais se for “amador”, referiu Joaquim Ferreira, frisando que “é difícil manter o grupo sempre unido e com os mesmos elementos”. As experiências que vão vivendo são muitas, mesmo sendo um grupo amador, sem qualquer experiência e, por isso, aprendem uns com os outros. Em palco, este amadorismo não sobressai, nem nas actuações, nem na envolvente. Os adereços e os cenários são feitos em exclusivo pelos actores, trabalhos estes que não têm interferido com a performance. “Há grupos que se dizem amadores, mas têm ensaiadores e colaboradores profissionais.” Para os próximos meses, já são muitas as actuações previstas. Que assim continue o grupo a dar cartas na representação.

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