Peso da Régua - Poiares // O tesouro adormecido Por: / Secção: O Olhar / 22-02-2010 · 4 comentário(s) Imprimir Enviar a um amigo
Santa Cruz de Poiares origem de lendas e opiniões distintasNa aldeia duriense de Poiares, guardiã de vistas privilegiadas em Peso da Régua, existe mais do que aquilo que, num primeiro contacto, qualquer visitante pode admirar. Há mais de cinco séculos, escondida num local que nem todos os habitantes conhecem, está “uma peça de valor inimaginável”, que até já correu Mundo. Nela está escondida a Santa Cruz de Poiares, à qual estão associadas lendas e opiniões distintas entre os vários habitantes da localidade. Decorria o longínquo ano de 1500 quando uma menina pastorinha surda-muda passeava o seu rebanho no Alto de Santa Bárbara, em Poiares. Enquanto os animais se alimentavam, a pequena distraia-se a fiar, quando deixou cair a sua agulha por um buraco. Foi nesse mesmo instante que a menina ouviu pela primeira vez um som, o som do metal da agulha a tilintar. Admirada, correu sem parar até chegar à aldeia para contar o sucedido a todos os habitantes, ela que até ao momento nunca tinha falado. Espantados e intrigados pelo sucedido, a população lançou-se para o local onde o “milagre” tinha ocorrido. Escavaram e escavaram, procurando pela agulha, até que descobriram uma Cruz e dois sinos, nesse mesmo buraquinho onde a agulha caíra. Pelo menos, é desta forma que reza a lenda da Santa Cruz de Poiares, que tanta gente ouviu falar, mas que pouca viu. Foram já vários os escritores que se debruçaram sobre a cruz, entre eles, Vergílio Correia, que foi responsável pela descoberta do documento comprovativo da idade da cruz, no “Agiológico Lusitano”. Nos escritos do autor pode ler-se que esta peça é feita de “pau-santo, forrada em prata, grande, antiga e fermosa, mandada fazer em 1225, por Afonso Mendes (prior da época na aldeia)”. O Mensageiro atraído pelo passado desta carismática aldeia, na tentativa de apurar a veracidade da lenda e a localização exacta desta preciosa relíquia deslocou-se ao local. O padre Artur Gomes, outrora Reitor do Seminário de Poiares, o actual Colégio Salesiano, foi quem nos guiou e confidenciou alguns dos segredos guardados relativos a este “tesouro escondido”. “A lenda, em princípio, é lenda”, foi desta forma que o padre Artur iniciou a sua versão. Apesar disso, deixou transparecer que “neste caso o resultado é visível”. No Alto de Santa Bárbara poderá ser vista “uma cruz que marca o local”, onde, há mais de meio século, “foi encontrada esta peça acompanhada de dois sinos”. Sinos estes que “estiveram na Igreja, mas que racharam e já foram substituídos há muito tempo”.
Secreta localização
A localização da cruz, que contrariamente aos sinos ainda resiste ao tempo, tem divido opiniões e, para a maior parte das pessoas, é realmente desconhecida, aspecto que contribui para todo o misticismo a ela associado. O padre Artur segredou que, em tempos, a cruz terá sido guardada numa casa particular, desconhecida da restante população. Actualmente, está a cargo do Pároco da aldeia, Armindo de Sousa, embora tenha ficado sempre sob a responsabilidade e supervisão do padre Artur, desde que este desempenhou funções na Paróquia. Foi relativamente a este aspecto que mais se dividiram os habitantes desta aldeia. Se uns defendem que teriam encontrado apenas um sino e a cruz, outros fazem questão de acrescentar que os achados já foram roubados ou levados para outras paragens. O próprio presidente da Junta de Freguesia, Heitor Ribeiro, apesar de desde sempre ouvir falar da cruz e saber que “é realmente uma peça de muito valor”, ainda hoje não sabe onde ela está. Na opinião de Gilberto Gonçalves, outro habitante da aldeia, que teve conhecimento da lenda pelos seus pais, “o sino está a ser utilizado, mas a cruz não, porque a levaram para Espanha e depois para Itália”. Continuando a recolha de opiniões pela aldeia, Hernâni Vieira, também ele residente em Poiares, já teve o privilégio de ver a cruz em três ocasiões, mas não sabe onde está guardada, garantindo que “o sino foi para Braga” e, por isso, já não pertence à aldeia. Em outra opinião, Maria de Lurdes Vieira, ou “senhora Lurdes”, como a tratavam os pequenos alunos da escola primária da aldeia aquando da visita do Mensageiro, “um dos sinos está a ser utilizado na Igreja e o outro partiu-se e foi mandado fundir”. Celina Moreira mostrou-se bem informada em relação à valiosa cruz e aos dois sinos encontrados. Teve conhecimento desta e da lenda “há mais de 30 anos”, quando se deslocou da sua terra natal, Bujões, para leccionar na escola primária. Todos os seus alunos “tinham que levar, por escrito, informações sobre a aldeia e todos eles levavam a lenda da Santa Cruz de Poiares”. Viu-a somente uma vez, durante “uma Feira Medieval organizada pelos alunos do colégio” e tem-na divulgado ao longo dos tempos. Agora reformada, mantendo a boa disposição, declarou que “na Quinta Seara D’ Ordens (a sua actual residência) todos sabem da cruz e desta lenda”. Também o olhar do Mensageiro a descobriu. Guardada a sete chaves dentro do Colégio Salesiano de Poiares, onde a doutrina guarda a história e a fé mantém o segredo da localização do seu cofre.
Monumento Nacional
Voltando à conversa com padre Artur, fez este questão de revelar que a cruz “está no cadastro nacional e é várias vezes requisitada pelo Governo e pela entidade ‘Monumentos Nacionais’ para exposições internacionais”. No passaporte desta peça já há carimbos da Bélgica, aquando da Europália, na exposição intitulada “Nos Confins da Idade Média”, Londres, Roma e Sevilha, durante a Expo 92, na qual a Santa Cruz foi a peça de destaque do pavilhão português. No nosso País, terão sido Lisboa e Porto, as cidades contempladas com a sua visita. Segundo nos informou o “guardião” da cruz, devido ao seu valor, “quando a vêm buscar, há sempre um carro blindado do exército com o requerimento dos ‘Monumentos Nacionais’”. Não tem sido feita muita divulgação “porque a cruz é um objecto de cultura, não é um objecto popular e também pela responsabilidade de a peça não ser roubada”. São estas as razões encontradas pelo pároco Artur para o “secretismo”. Mesmo assim, o presidente desta freguesia afirmou que já se tem movimentado no sentido de “dotar um espaço na Igreja de alarmes de alta segurança para guardar o objecto mais valioso da aldeia”, pois “a cruz deveria estar exposta”. Entre os habitantes, a opinião também se divide. Se por um lado, “a cruz deveria ser divulgada, porque poderia trazer mais turistas à aldeia e à região”, tal como nos afirmou José Costa, por outro, existirá sempre a necessidade de protegê-la, devido ao seu valor. Celina Moreira mostrou-se, assim, mais reticente, quanto à possibilidade de expor a peça constantemente, uma vez que, “se é património, deve ser preservado, conservado e mostrado apenas quando é necessário”.
Desejada em Vila Real
Continuando à descoberta dos segredos da Santa Cruz, existe uma proposta encabeçada pelo Padre João Parente no sentido de a expor permanentemente no Museu de Arqueologia e Numismática, em Vila Real, como nos revelou o padre Artur. Relativamente a esta questão, o “guardião da cruz”, além de mostrar alguma preocupação, “porque é difícil alguém se responsabilizar por uma peça de tanto valor”, referiu que “a população também tem medo que nunca mais volte este valioso património da aldeia, único na Península Ibérica”. O interesse pela cruz por parte do pároco de Parada de Cunhos, João Parente, surgiu “há cerca de 20 anos”. Após ler uma referência num livro, interessado, apesar de “não acreditar na lenda”, deslocou-se a Poiares para saber mais sobre esta “peça sem preço, única no mundo”. Foi ele quem serviu de guia a curiosos visitantes durante muitos anos e também o responsável por avaliar a cruz quando esta viajou para a Bélgica, para ser exposta na Europália. Faz agora força para trazê-la para Vila Real, considerando que “lá a cruz não tem visibilidade e não tem a segurança necessária”. Conhecedor do receio do povo na vinda da cruz para a capital de distrito, onde “teria uma excelente segurança”, mostrou alguma mágoa por “uma peça tão valiosa” estar esquecida.
Ao Olhar do povo
O padre Artur confessou que “houve uma época em que a cruz esteve guardada e não era mostrada ao público”, mas, actualmente, “é costume mostrá-la na Sexta-feira Santa”. É nesta data que a Cruz é levada para a Igreja da freguesia, onde os interessados podem admirá-la. Em outras épocas do ano, “as pessoas podem visitá-la, mas terão que estar integradas em grupos com guias ou com pessoas responsáveis” e terá que ser efectuado um contacto prévio. Sérgio Reis
Sabia que…
O padre João Parente irá lançar um livro, que está a ser trabalhado há mais de uma década, onde irá “dar visibilidade à Santa Cruz de Poiares”, procurando dar a conhecê-la, uma vez que “pouca gente sabe dela”.

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4 Comentários
Acabam por ser as primeiras vítimas dos seus pertences.
É preferível não ter nada...ter para estar escondido!
A melhor solução passaria mesmo por estar no museu de arqueologia em Vila Real ou no museu do Douro na Régua em que podia ser vista e admirada pelas pessoas, com algumas condições de segurança.
Assim não sei bem onde possa estar o interesse em ter uma jóia no cofre de um banco sem a poder ver e gozar.
Na minha opinião, o lugar ideal para guardar esta relíquia, de valor incalculável, seria a Igreja Matriz de Poiares ( com todas as medidas de segurança). Assim, todos poderiam apreciar esta bela peça, tanto os filhos da terra como todos os interessados.
Está de parabéns o jornalista pela recolha, pesquisa e tratamento da informação. Aguardo com espectativa o levantamento de outras lendas da Região.