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Entrevista // “Se a sede regional da cultura sair de Vila Real, perde-se a ponte com o Interior” Por: Frederico Correia / Secção: Actual / 19-12-2009 · 2 comentário(s) Imprimir Enviar a um amigo

Foto: Frederico Correia Ex-directora Regional de Cultura do Norte, Helena Gil
Helena fez ao Mensageiro o balanço do seu mandato

Entrou para a então Delegação Regional há 13 anos e, nos últimos quatro anos e meio, foi a responsável máxima pelo sector da cultura na região Norte. Primeiro como delegada, depois como Directora Regional. O socialista José Sócrates conseguiu novamente formar Governo, mas Helena Gil deixou de fazer parte dos seus planos. Em entrevista ao Mensageiro, a ex-directora fez um balanço da sua passagem pela Direcção Regional da Cultura do Norte (DRCN), confessou que esperava ter permanecido no cargo e mostrou receio de que a região perca a sede regional para o “centralismo” do Porto.

Mensageiro Notícias (MN):Com o Programa de Reestruturação da Administração Central do Estado em 2006, assumiu o cargo de Directora Regional, dando continuidade aos dois anos e meio como delegada regional. Que diferenças sentiu?

Helena Gil (HG): São momentos distintos. A delegação tinha competências reduzidas, menos concretizadas em termos de missão, porque éramos genericamente os representantes do Ministério da Cultura na região, mas ao mesmo tempo não tínhamos nenhum tipo de tutela sobre qualquer organismo ou área específica. Com a reestruturação, agregaram-se as competências espalhadas por diversos organismos. A Direcção Regional de Cultura assumiu, assim, as atribuições que já eram da Delegação, as competências do então Instituto Português do Património Arquitectónico (IPPAR), da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos e as do Instituto Português de Arqueologia.

MN: O que lhe foi pedido?

HG: A DRCN assumiu uma nova estrutura orgânica, organizando e coordenando os serviços de todas estas áreas, incluindo alguns monumentos, como o Mosteiro de Tibães, que tem uma missão própria e, na altura em que assumi a direcção, tinha 30 funcionários. Ou a Área Arqueológica do Freixo que tem também objectivos próprios.

“É preciso espírito de cultura Norte”

MN: Quais foram as primeiras medidas?

HG: A principal foi organizar a casa. Reuni com todos de modo a introduzir neste conjunto de organismos que viviam separados e, sobretudo, dependentes e ligados aos institutos centrais, de Lisboa, o espírito de Cultura Norte. Foi um trabalho difícil e não sei se, neste curto espaço de tempo, foi conseguido, porque foram muitos anos num modelo de funcionamento diferente.

MN: Com que dificuldades se deparou nesse processo?

HG: Sobretudo, a separação geográfica. A estrutura principal em termos de órgãos de decisão está em Vila Real [Direcção], depois há um serviço muito grande no Porto [Direcção de Serviços dos Bens Culturais], outro serviço em Braga, outro em Marco de Canaveses e um outro em Viseu. Unir estas partes e fazê-las trabalhar para um mesmo fim foi talvez a parte mais complicada. Não só a nível pessoal pela mobilidade a que estava obrigada, mas a nível da gestão de recursos humanos.

MN: Conseguiu unir estas “partes”?

HG: É uma pergunta difícil de responder, porque muitas destas estruturas tinham objectivos diversos e estratégias e formas de organização diferentes. Dois anos é um período curto para reorganizar de forma articulada e coerente todas estas “partes”.

“Douro, o grande potencial do Norte”

MN: Que projectos imateriais se podem destacar?

HG: Apontaria talvez os projectos “O Douro... nos Caminhos da Literatura” e a “Linha Mestra”, pelo trabalho de continuidade que representam. Um dos objectivos foi potenciar a literatura como factor de desenvolvimento cultural e turístico. A experiência de sucesso do “Viajar com... os Caminhos da Literatura” levou-nos a aplicar a mesma fórmula ao Douro agora através da produção de documentários, tirando partido do poder da imagem. A região do Douro tem potencialidades muito grandes e referências literárias imensas. Estes documentários tocam os quatro pilares que são frequentemente mencionados como corolários do desenvolvimento da região - Turismo, Cultura, Vinho e Paisagem - e tudo através da literatura e da visão particular dos escritores a ela ligados...

MN: A Linha Mestra também representa uma “continuidade”, mas de carácter transfronteiriço, é isso?

HG: Certamente. Era objectivo manter e reforçar os projectos de cooperação, quer com Castela e Leão, quer com a Galiza. A relação com a Galiza é a mais antiga, com quem tivemos bons projectos, e curiosamente até nos “copiou” em algumas iniciativas, como é o caso dos roteiros literários. Com Castela, a relação é mais recente, mas tem vindo a consolidar-se.

MN: Espera a continuidade dos projectos transfronteiriços?

HG: Espero e faz sentido que a nova direcção continue com estes projectos. A cultura mirandesa - a língua, a música, a dança, o teatro ou a gastronomia - deve ser das manifestações de identidade cultural das mais vivas e autênticas que temos. Por isso, pode e deve ser potenciada, porque Miranda do Douro vive também do turismo, sobretudo dos espanhóis, bem como dos visitantes portugueses que buscam a identidade e a autenticidade das tradições. O projecto “Linha Mestra” partiu exactamente deste pressuposto e teve na música e nos instrumentos musicais tradicionais a sua principal linha de força.

MN: Isto do ponto de vista imaterial e dos projectos materiais?

HG: Apresentámos ao QREN vários projectos de carácter infra-estrutural tais como o conjunto monumental do Vale do Varosa, que inclui a recuperação e valorização, em rede, de vários monumentos como que é o caso dos Mosteiros de S. João de Tarouca, Salzedas, Ferreirim, Ucanha e S. Pedro de Balsemão, que estão afectos à DRCN. Foi também aprovado e está já em execução, numa parceria com Castela, um projecto que visa a constituição de uma rede de monumentos de fronteira, maioritariamente de cariz religioso, como a Sé de Miranda, as Igrejas de Moncorvo e Freixo de Espada à Cinta e Vila Nova de Foz Côa. Foram igualmente apresentados e aguardam aprovação outros projectos de natureza infra-estrutural em outras áreas da região Norte, como os Mosteiros de Rendufe, de Vilar de Frades ou de Pombeiro, entre outros.

MN: Foi também durante a sua direcção que se resolveu o impasse do Museu do Douro e se avançou com a construção do Museu do Barroso, do Crasto de Palheiros, em Murça, o Museu de Foz Côa, entre outros...

HG: São equipamentos estruturantes para a dinâmica do território e espero que eles tenham as pessoas certas à frente para tirarem partido das enormes potencialidades que eles encerram. E espero que os seus responsáveis sejam capazes de trabalhar em sintonia e complementaridade. Embora estes organismos não dependam directamente da DRCN é importante que ela esteja atenta para poder ajudar a essa coordenação.

“É difícil lidar com o provincianismo que é o centralismo do Porto e Lisboa”

MN: Como foi o relacionamento com o Governo?

HG: Foi óptimo, dentro das relações institucionais. Nunca houve qualquer problema. O relacionamento mais tenso foi com o IGESPAR (Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico), em virtude da lei orgânica. Há atribuições da direcção regional, que chocam com as do IGESPAR. A lei orgânica precisa urgentemente de ser revista para um melhor funcionamento das partes.

MN: Fala-se muito do “distanciamento” em relação a Lisboa, sentiu isso?

HG:0Há uma visão provinciana de Lisboa em relação ao resto do País, porque saindo de um certo limite é tudo província. É o centralismo e isso está a minar o desenvolvimento do País. Enquanto não houver consciência de que as cidades e os concelhos precisam de ganhar fôlego e autonomia, o crescimento fica condicionado e comprometido. Há um outro tipo de centralismo que se manifesta por parte do Porto em relação ao resto da região Norte. É provincianismo pensar que toda a massa cinzenta se encontra apenas em Lisboa ou Porto. Podemos lutar contra tudo, mas é muito difícil lutar contra os preconceitos.

MN: Mas a Direcção Regional da Cultura está em Vila Real...

HG: E esse facto é ainda visto, preconceituosamente, como uma menor importância dada à cultura e eu acho exactamente o contrário. A DRCN está em Vila Real há 16 anos e ao longo deste tempo soube construir uma estratégia de actuação tirando partido da posição “geoestratégica” que Vila Real ocupa na região Norte. Esta centralidade permite-lhe fazer a ponte entre o Litoral e o Interior mais interior. Sendo uma cidade de província, Vila Real já não é uma cidade provinciana e, a partir dela, a DRCN pode fazer uma leitura mais ampla de toda a região.

MN: Ajuda a nivelar as assimetrias que existem na região?

HG: Precisamente. Para um dirigente esta localização possibilita ter uma noção da orientação que deve imprimir à sua actuação para colmatar essas assimetrias. Há necessidades e manifestações diferentes e a riqueza da região Norte vem dessa diversidade e da capacidade de dar valor às diferentes manifestações culturais. A região Norte é como uma manta de retalhos, com partes bordadas a ouro, outras a lantejoulas e outras feitas de burel, mas nenhuma é menos ou mais importante que as outras.

Responsáveis locais têm de estar atentos

MN: Se a sede sair de Vila Real perde-se esta ponte?

HG: Perde certamente e confesso que estou muito apreensiva, porque uma das questões que se levantaram foi a necessidade de mudar de instalações e a solução que eu tinha encontrado, ainda que não a definitiva, seria mudar para o edifício dos Correios de Vila Real, com orçamento e autorização já conseguidos, não se irá cumprir, ao que sei. Espero que a alteração de planos se deva a ter sido encontrado um espaço ainda melhor na cidade e não à sua eventual saída para o Porto. Espero que os responsáveis locais, políticos, autarquias e sociedade civil, estejam atentos a essa possibilidade, porque seria grave perder esta direcção regional.

MN: Há a ideia que o último Governo “esqueceu” a Cultura. Que opinião tem?

HG: Tive o “azar” de ser dirigente no período de maior contenção orçamental. Se enquanto delegada regional, nos dois primeiros anos de governação, pude trabalhar com algum conforto financeiro, nos anos seguintes o aperto foi muito grande. Em 2008 e 2009, não tivemos nenhum orçamento de investimento, inclusivamente para apoio aos agentes culturais da região, como bandas filarmónicas ou companhias de teatro amador e outras associações culturais. Era uma atribuição da DRCN que nos vimos impossibilitados de cumprir.

Mudam políticas, mudam caras

MN: Esperava continuar no cargo?

HG: Quando se assume um cargo de natureza política sabe-se que ele é efémero. Quando muda o Governo, corre-se o risco de haver mudanças. Que tinha força e projecto para continuar tinha, mas o Ministério da Cultura entendeu introduzir uma nova opção estratégica nas Direcções Regionais. Essa opção é para mim muito clara. Se virmos o perfil de cada um dos actuais directores regionais e [mudaram quatro, em cinco] vê-se que há um claro enfoque no património o que não corresponde à minha forma de entender a intervenção cultural nas regiões. Esta sobrevalorização do património corresponde à vontade do Secretário de Estado da Cultura [Elísio Summavielle, Ex-Director do IGESPAR] que, de acordo com uma entrevista dada ao Jornal Público, expressou a necessidade de criar extensões do IGESPAR nas diferentes regiões. Nomear directores regionais oriundos da área do património foi a maneira mais fácil de concretizar o seu objectivo.

MN: O que pode perder a cultura?

HG: Espero que não perca nada e que esta visão redutora seja apenas um mau pressentimento...

MN: E como será regressar à actividade de professora?

HG: Durante muito tempo pensei que não sabia ser outra coisa que não professora. Agora, e depois de 13 anos a trabalhar na área da cultura, ter de regressar ao ofício será mais complicado, porque na educação tudo tem evoluído muito rapidamente. No entanto, esta minha experiência trará contributos válidos e espero poder rentabilizá-la seja na escola seja noutros contextos que possam vir a surgir.

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Nome: Helena Gil Licenciada em Filologia Germânica Idade: 54 anos Profissão: Professora

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2 Comentários Feed

regionalista · escreveu em 20-12-2009 às 12:37:29
esta sra já saiu a uma data de tempo e este é o jornal que 1º a entrevista. parebens agora acredito na dimensao regional que dizem ter
vila-realense · escreveu em 21-12-2009 às 00:24:45
Esta srª saiu apenas na semana passada
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