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Vila Real // Em União Artística Por: Frederico Correia / Secção: O Olhar / 16-11-2009 · 1 comentário(s) Imprimir Enviar a um amigo

Foto: Frederico Correia
Decorria a primeira década do século XX, quando surgiu aquela que viria a ser uma das mais pesadas associações do concelho vila-realense

De vida próspera enquanto o povo dela precisou, sempre contando com apoio dos seus eternos beneméritos, a União Artística Vilarealense manteve-se fiel aos que dela precisaram. Passados 99 anos desde a oficial fundação, o rejuvenescimento impõe-se para que “este património não se perca”. “Em 12 de Dezembro de 1909, por uma simples lembrança, reuniram-se nos baixos duma casa situada em frente à Travessa da Trindade, desta Vila, meia dúzia de operários numa noite de Dezembro, dessas noites invernosas em que o vento sopra rijo e fortemente, fazendo-se acompanhar de grossas botas para a água. Ali, combinaram fundar uma associação de pobres e humildes a que alguém se lembrou dar o nome de União de Mocidade Imparcial, sendo a designação aprovada por unanimidade por todos que assistiram à reunião, pois não desejavam que a sua colectividade tivesse qualquer fracção política, e assim, no meio do maior entusiasmo procedeu-se à nomeação dos primeiros corpos gerentes que assumiram administrá-la.” É desta forma resumida a fundação daquela que é uma das mais antigas colectividades do concelho de Vila Real. O texto rubricado a 30 de Dezembro de 1915 tem por autor um “anónimo” associado, que apenas deixou como marca a sua modéstia, como o título bem retrata: “Singela narrativa sobre a fundação e administração da nossa colectividade desde 1909 a 1915”. Com o virar das páginas do tempo, a então fundada União de Mocidade Imparcial passou por vários períodos até ao patamar em que se encontra actualmente. Depois de denominar-se União Artística Imparcial chegaria ao actual nome de União Artística Vilarealense (UAVilarealense). Posto isto, que se comecem a desenrolar as lembranças do “tempos áureos” em que as colectividades eram um assumido peso na sociedade. Nela, como recorda Euclides Almeida, um dos actuais responsáveis pela comissão administrativa, a União Artística viveu o seu “melhor período” quando ainda não havia televisão e escasseavam os gira-discos, os espaços de diversão eram poucos e reservados. “Era sobretudo dirigida à classe pobre e média, porque a alta tinha encontros noutros clubes da cidade”, explicou Euclides Almeida. Nela faziam-se bailes e festas, mas não era somente à diversão que as direcções da UAVilarealense destinavam os seus esforços. Nela se tratavam os enfermos e se dava cultura aos desfavorecidos, acompanhados de cabazes em tempo de olhar à família. “Nos tempos áureos que fizeram desta casa uma ‘grande casa’, não havia Segurança Social, não havia assistência médica, nem escola para adultos”, enumera este associado. Por isso, a União Artística reunia esforços para que os seus médicos e professores associados disponibilizassem algumas horas por semana para cuidar os mais desfavorecidos e criou a Caixa de Socorros. “Até se pagavam os funerais aos sócios sem possibilidades”, acrescenta Euclides Almeida. Em suma, a UAVilarealense serviu para colmatar as lacunas de uma sociedade a atravessar momentos controversos. “A nível social, mas também ao nível cultural, com um grupo de teatro, e na vertente recreativa e desportiva, onde chegou a ter uma filiação ao andebol, a União Artística ajudou a evoluir a cidade”, acrescenta António Barreira, um dos mais novos associados da colectividades. Beneméritos de outros tempos De reconhecido valor social, a associação foi colhendo ao longo da sua existência muitos admiradores que se associavam à causa. Além dos muitos anónimos que se foram esgotando em trabalhos para construir a UAVilarealense, as direcções foram perpetuando nas suas paredes os notáveis beneméritos. Entre os quais se destaca a D. Virgínia Rosa Teixeira que se recosta num retrato ao topo da sala. O lugar não foi escolhido ao acaso, o tamanho do seu retrato também não, ou não fosse esta uma das maiores responsáveis pelo construir da UAVilarealense. Ao longo da sua vida, foi concedendo à colectividade donativos e participando nas suas iniciativas para, assim, também chegar aos que dela dependiam. As actuais instalações, situadas bem junto aos Paços do Concelho, foram por ela doadas, a fim de dar forma à UAVilarealense. No seu longo testamento, onde deixou praticamente todos os seus bens à Santa Casa da Misericórdia, a quiromante Madame Brouillard, o nome profissional adoptado por Virgínia Rosa Teixeira (1852 – 1925), não olvidou a sua colectividade preferida. Como incentivo a todas as actividades, deixou escrito que a Santa Casa da Misericórdia deveria conceder anualmente dois mil reis da sua riqueza à UAVilarealense. “Agora até nos dá para rir a actualização que a Santa Casa da Misericórdia fez. No ano passado, fomos lá buscar pouco mais de dois euros, mas este ano nem devemos lá ir. É uma actualização, desactualizada”, ironiza José Aguiar, outro dos elementos da comissão administrativa. De outros beneméritos as memórias dos dois elementos da comissão administrativa refugiam-se em Joaquim Barreira dos Santos, que “recentemente desapareceu”, mas à imagem de tantos outros, “deixou muita memória na União Artística”. O estatuto perdido... À medida que as iniciativas se iam sucedendo, a UAVilarealense começou a ganhar estatuto dentro do então pequeno núcleo urbano de Vila Real. Começando pelas comemorações do 1º de Maio, que tiveram na colectividade a sua principal força impulsionadora, até ao peditório que levaria à construção de um dos símbolos da cidade de Vila Real. José Botelho de Carvalho Araújo nasceu a 18 de Maio de 1881 e faleceu no dia 14 de Outubro de 1918 no seu posto em combate contra os Alemães, na Ponte do Caça – Minas, o navio Augusto Castilho. A história conta que o ilustre vila-realense, a bordo do pequeno barco português, investiu sobre submarino Alemão U.139 de 1500 toneladas, ao largo dos Açores, e durante duas horas evitou a rendição para permitir a fuga do barco a vapor S. Miguel, com 206 passageiros a bordo. Aos louvores Cruz de Guerra de 2ª Classe e II Grau da Ordem de Torre Espada, concedidos postumamente, ao comandante foi erguido um monumento em 1924 bem no coração de Vila Real. “O peditório para fazer a estátua estendeu-se a nível nacional, mas a iniciativa partiu da UAVilarealense”, referiu José Aguiar. Orgulhosamente, os elementos mostram como prova a maqueta da estátua, que figura no Salão Nobre da União Artística, oferecida pelo escultor Anjos Teixeira. Com o fim do período áureo, começou uma ligeira estagnação nas iniciativas da União Artística. Euclides Almeida vê na desertificação e envelhecimento do berço da cidade como um dos factores, mas há mais justificações. “Temos de entender que o período do ultramar levou parte da juventude de Portugal e nisso Vila Real não foi excepção”, avança António Barreira. Assim, perdida alguma da juventude e criatividade, a União Artística foi parando e deixou de ver correr o “sangue novo” nas anteriores direcções. “Quando começaram a regressar os mais jovens, as diversões também foram começando a surgir e, conjuntamente com a dispersão dos bairros desta zona antiga da cidade, foram levando à perda de sócios e de movimento desta casa”, resume José Aguiar. ... a vontade de rejuvenescer Actualmente a UAVilarealense soma pouco mais que 150 associados. A sua maioria tem “mais de 30 anos de casa”, que é como quem diz, já são sócios há mais de três décadas e a sua direcção assume-se como “meia dúzia de carolas” a quem custa assistir à perda deste “pequeno-grande património de Vila Real”. A solução terá de passar pela “injecção de ideias, ofertas e juventude”, defende Euclides Almeida. “Agora que preparamos os 100 anos da colectividade temos de arrastar juventude. O António Barreira já faz parte desta estratégia, mas temos de pensar que, sem nada para oferecer, não angariamos novos sócios”, acrescenta Euclides Almeida. Durante as tardes, alguns dos associados passam os seus momentos depois do almoço entre jogos de cartas. “É uma distracção e uma forma de mantermos aberta a União Artística”, explica José Aguiar. O futuro terá de passar por aí, mas também pelos mais novos. “É provável que em 2010 venhamos a ser parceiros de um projecto que será apelativo às novas gerações, como por exemplo ter um posto de internet”, desvenda António Barreira. No edifício a precisar de obras, que não são possíveis sem ajudas externas, os elementos da comissão administrativa pensam alargar as ofertas e criar um “pequeno centro de dia”. “Gostaríamos de ver aqui funcionar um pequeno refeitório aberto à sociedade, afinal também carecemos deste apoio no centro da cidade”, acrescenta António Barreira. A UAVilarealense irá, até ao final do ano, marcar uma assembleia geral para reajustar os seus estatutos “à realidade social actual” e estipular uma nova cota, que “há largos anos se mantém em 1,20€ por ano”. A preparar o seu centenário, em 1 de Novembro de 2010, esta “imagem de marca vila-realense” não receia o futuro e mantém a certeza consagrada nos seus estatutos: “associação de pobres e humildes, defendendo todas as classe proletárias e sem qualquer fracção política”.

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1 Comentário Feed

vila-realense · escreveu em 16-11-2009 às 23:36:56
é preciso um jornal sedeado em bragança para se ler um pouco muito resumido do istorial desta grande associaçoa da nosa terra.
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