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Peso da Régua // Baile das Vindimas com mais glamour Por: Frederico Correia / Secção: O Olhar / 09-10-2009 Imprimir Enviar a um amigo

Foto: Frederico Correia Graça Morais aceitou uma dança com Joe Berardo
Viu a luz do luar pela primeira vez em 1956 e está novamente na moda

O Douro sempre foi muito mais do que uma comum região com videiras plantadas à beira-rio. É uma terra de pessoas, de história, de contos e lendas, de cultura e a região mãe do mais conceituado dos vinhos: o “generoso”. Tudo o que faz parte do Douro actual foi inventado ao longo dos séculos e começa a ser redescoberto e engrandecido. O Baile das Vindimas é apenas mais um dos exemplos. Viu a luz do luar pela primeira vez em 1956 e está novamente na moda. O festejar do fim do ciclo dedicado à produção dos vinhos do Douro tem agora ainda mais glamour...conservando o mesmo espírito solidário.

“Eram todos novos e bons rapazes”. Bem se podia definir assim o grupo de jovens que organizou o primeiro e majestoso Baile das Vindimas do Douro. “Todos estávamos na casa dos vinte anos e cheios de vontade para fazer algo diferente”, caracteriza Fernando Carvalho, um dos primeiros organizadores desta festa. Contrariamente ao que se possa dizer, a história em arquivo e a memória do grupo de amigos não deixa mentir. “O primeiro Baile, em 1956, foi organizado muito à pressa e no Salão Nobre do Quartel do Bombeiros de Peso da Régua, nessa altura, ainda por acabar”, explica Fernando Carvalho, contrariando a tese de que o primeiro Baile teria sido feito já na Casa do Douro. A Casa do Douro seria apenas o segundo palco. Esse “Coração do Douro”, a “Pátria de todos os vitivinicultores”, como a qualifica Fernando Carvalho, foi o passo seguinte. Depois do “primeiro grande sucesso”, o grupo de jovens achou que era tempo de “arriscar” e elevar ainda mais a fasquia do evento inaugural. “Fomos pedir ao então presidente da Casa do Douro autorização para realizar o Baile de 1957 e lá conseguimos, com algum custo”, desabafa Fernando Carvalho. Para além de ser uma novidade, esta comissão não passava de um grupo de jovens mais “afoito”, com pouco mais que 20 anos, e interessado em dar algo mais ao Douro. “Depois de uma sessão de cinema, faltava qualquer coisa”, acrescenta Fernando Magalhães, outro membro da primeira comissão organizadora, para justificar a persistência com que lutaram pelo evento. Reticências ultrapassadas e realizam-se mais duas edições do Baile das Vindimas em 1957 e 58, já sob o tecto do Salão Nobre da “Pátria dos vitivinicultores”. “Os relatos da imprensa da altura, que não se compara à de agora, falam de 700 pessoas nesta sala onde hoje estamos”, confidencia Fernando Cardoso, ao mesmo tempo que felicita o aumento da cobertura mediática da reedição do evento. “Quanto mais projecção se der, melhor para esta casa, melhor para a região.”

A juventude que não podia ter mérito

À data dos primeiros bailes, os tempos eram outros e aos jovens pouco se reconhecia “a capacidade”. Apesar de todo o esforço e trabalho “árduo” para que tudo corresse bem na noite da festa, nenhum dos jovens que participou na organização do evento teve direito ao “reconhecimento” no convite. “A comissão de honra, como se chamava a organização, era apenas composta pelos nomes do presidente da câmara, do governador civil, do comandante desta ou daquela força, e pelos presidentes de outros organismos”, revela Fernando Carvalho. Com alguma angústia, divide agora os “louros” pelos parceiros como Mário Mendes, Berto Cardiano e mais “alguns que já morreram”. No entanto, até se pode aceitar que “assim fosse”, caso contrário não teriam o sucesso desejado. “As pessoas de cartola e laço não vinham cá se tivesse o nosso nome. Éramos miúdos de vinte e poucos anos e poucos acreditavam que conseguíssemos este êxito”, explica Fernando Carvalho. “Alguns deles nunca aqui vieram, muito menos trabalharam na sua organização”, lamenta, mas acrescenta que “o importante era o êxito”. A inexperiência e a falta de apoio levou a que a jovem comissão organizadora deixasse escapar uma oportunidade “fantástica”. Falharam a contratação de um concerto com o conceituado Júlio Inglesias na edição de 1958. “Pediram-nos em Orense duzentos contos, assustámo-nos um pouco e acabou por não vir. Bem nos arrependemos”, recorda Fernando Magalhães.

Inevitáveis paragens

Sempre condicionada à disponibilidade dos “senhores da terra”, o grupo de jovens, embora mais crescidos, foram sempre guardando a vontade de realizar o majestoso bailado. “A culpa das interrupções nunca foi bem dos homens, mas por outras razões”, explica Fernando Carvalho. Por altura do 25 de Abril de 1974, a tensão aumentou e apenas se voltou a realizar o Baile em 1975, repetindo-se no ano seguinte. “Fomos falar com o Capitão Pardal, que era então o presidente da Casa do Douro, e dissemos: esta sala da Casa do Douro não serve para nada, está fechada, e como já houve um grande Baile em 1957 e 58, podíamos fazer”, lembra Fernando Carvalho. Dada a autorização por parte do capitão, que recusaria a elaboração de convites, abrindo a festa a todos, ressurgiu o Baile das Vindimas do Douro. “Foi um êxito. Aliás, tornou a ser um êxito”, corrige Fernando Carvalho. Nova interrupção viria a marcar a história do evento, até que a tradição se voltasse a erguer já na década de 90, novamente por apenas dois anos.

Elegância transversal às décadas

Se na noite de 3 de Setembro de 2009 a elegância era retocada em cada vestido ou fato dos convidados presentes, Fernando Carvalho depressa recorreu ao baú da memória para descrever os “tempos passados”. “As mulheres sempre vieram muito bem vestidas, mas os homens também.” A apresentação dos convidados parece mesmo um dos mais elementares requisitos e nem o “25 de Abril” mudou a ideia dos organizadores. “Nunca vieram pessoas de calças rotas, nem chinelos, apesar de ainda terem tentado depois do 25 de Abril”, revela Fernando Magalhães, entre sorrisos. À beleza duriense, a “nova era” do Baile das Vindimas junta agora mais glamour, com imprensa “cor-de-rosa” à mistura, e rostos conhecidos. Das revistas, aos ecrãs de televisão, dos nomes sonantes do futebol, música ou teatro, o Douro acolhe agora as mais variadas perspectivas de um país a que inevitavelmente tem de aceitar que pertence. Para Mário Ferreira, responsável pela DouroAzul, empresa promotora desta reedição do Baile das Vindimas do Douro, esta será “mais uma oportunidade de promover o Douro”. “A região estava afirmada em termos vitivinícolas e está a afirmar-se cada vez mais com os vinhos de mesa e é notória a qualidade, distinguida a nível nacional e internacional. Por isso, é preciso atrair ao Douro, para dar a provar os nossos vinhos e as nossas tradições.” O duriense Pôncio Monteiro foi também ele um dos primeiros organizadores do Baile e agora mais um dos convidados. Num Douro que “tem sido esquecido por sucessivos governos”, é altura de criar “um pretexto para chamar mais gente ao Douro” e dá a receita. “Associadas a este Baile, são precisas mais manifestações, como visitar as quintas e ver o ritual das vindimas”, atira Pôncio Monteiro, acrescentando que a região precisa de aproveitar “a sua igual beleza e a maior esperança que agora tem”.

Espírito solidário

Já em 1956, os grupo de jovens criadores do evento teve a feliz ideia de recolher fundos para uma instituição de apoio social. Na altura, a Conferência S. Vicente de Paulo de Peso da Régua foi a beneficiada com o apoio benemérito dos convidados para o Baile das Vindimas do Douro. Agora, passados 53 anos desde a primeira organização, o espírito mantém-se e reeditou-se também um leilão de beneficência. Com três objectos doados para o efeito, a organização improvisou o arrematar das valiosas peças e recolheu alguns milhares de euros, com destino à Santa Casa da Misericórdia de Peso da Régua. Movida pela força do despertar de uma região “única”, a tradição do Baile das Vindimas do Douro poderá ser um ícone dos eventos com mais glamour. Para o ano, será altura de se repensar o evento, melhorá-lo, sem contudo lhe alterar a casta. Até lá, o ciclo da produção dos vinhos do Douro terá de recomeçar, para que, no final, a região Património Mundial possa novamente bailar de alegria.

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