. // Há Pastores sem rebanho? Por: / Secção: Editorial / 12-09-2009 Imprimir Enviar a um amigo
.Ao proclamar o Ano Sacerdotal, Bento XVI pretendia sensibilizar as comunidades cristãs para os "grandes ideais" da vida sacerdotal, "nestes tempos que são os nossos". O tema proposto, "Fidelidade de Cristo, fidelidade do sacerdote", parece centrar a reflexão sobre a identidade sacerdotal e perder-se a dimensão comunitária do sacerdócio. Os sacerdotes são ordenados sobretudo para o serviço pastoral às comunidades cristãs e não somente para sua realização sacerdotal. Como muito bem sintetizou Santo Agostinho, na sua frase lapidar: “Sou cristão convosco e bispo para vós”, também o sacerdote se deve descobrir cristão com os outros fiéis e ordenado para o seu serviço. Na semana passada, centenas de sacerdotes, com alguns bispos, diáconos e seminaristas, num total de mais de 800 participantes, reflectiram, em Fátima, sobre o tema “Reaviva o Dom que há em ti”. Esta temática pode conduzir a uma reflexão mais centrada no sacerdote e esquecer a sua dimensão e orientação comunitária. De facto, nas conclusões do Simpósio realçam-se muito mais as questões intrínsecas à vida sacerdotal, como sejam a Formação Permanente ou a formação inicial nos Seminários, do que a vivência do ministério ordenado no seio das comunidades e orientado para elas. Apesar desta segunda temática não estar tão vincada no texto das conclusões, certamente, não se deixou de reflectir sobre ela ao longo das diversas sessões do simpósio. O Cardeal Hummes, vindo de Roma, onde é o responsável pela Congregação do Clero, apelou a que não se convertesse o ministério ordenado “numa espécie de profissão eclesiástica” e denunciou que muitos sacerdotes vivem a sua vocação “como funcionários que aprenderam a fazer a função”. Os sacerdotes são chamados a imitar o Bom Pastor e, como Ele, a darem a vida pelas suas ovelhas. Não se entende um Pastor sem ovelhas, como é difícil de subsistir um rebanho sem o Pastor, que é Jesus Cristo, e os seus auxiliares e imitadores, que são os sacerdotes. D. José Policarpo, numa conferência proferida no Simpósio, em que explorou o tema “Crescer como pessoas para servir como Pastores”, elencou as principais características do Bom Pastor, que os sacerdotes são chamados a imitar, citando o conhecido teólogo Walter Kasper. “É alguém que conduz, que tem a coragem de indicar o caminho da vida à luz da fé”. “O pastor é um amigo e servidor da vida, que identifica na sua fonte, para a qual indica o caminho. O pastor do nosso tempo não pode limitar-se a conviver só com os que frequentam a Igreja; vai à procura dos que abandonaram e mesmo dos que nunca foram cristãos. Tem uma solicitude particular pelos pobres. É alguém que vigia e está atento, que sabe interpretar as influências contínuas do espírito do mundo sobre a Igreja. Não se apascenta a si mesmo, não procura na acção pastoral vantagens próprias, sobretudo de ordem material. O desprendimento faz parte da atitude do pastor. A vivência deste dom pode ser o fruto de convergência e reencontro de todos os que, sinceramente, buscam um novo rosto de Igreja, quer os que, movidos pelo entusiasmo conciliar, tenham partido ao encontro do mundo, quer desiludidos com o mundo, tenham partido à procura da Igreja”.

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