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Bragança // Roteiro pelos museus Por: Carla A. Gonçalves / Secção: O Olhar / 03-07-2009 · 1 comentário(s) Imprimir Enviar a um amigo

Foto: Carla A. Gonçalves Vista da cidade, no cimo do Castelo de Bragança
Pelas ruas da cidade até ao coração da cidadela, uma viagem cultural pelo espólio histórico brigantino

Localizada bem no interior de Portugal, há pouco tempo atrás Bragança era uma cidade sem praticamente expressão cultural. Os movimentos artísticos contemporâneos ou mesmo as artes tradicionais não tinham o devido lugar, espaço ou tempo. Aconteciam amiúde no Museu Abade Baçal, ou pela mão de jovens artistas, em iniciativas privadas que se realizavam para pequenos públicos. No espaço de cinco anos, no entanto, a cidade sofreu uma espécie de “revolução cultural”. A par com o Museu Abade Baçal e com o Museu Militar, nasceu na cidade uma casa direccionada apenas para o Teatro. Seguiu-se depois a criação do Museu Ibérico da Máscara, do Centro de Ciência Viva e, por fim, do Centro de Arte Contemporânea. Mas se tal “revolução cultural” ainda não se sente pulsar e passa ao lado dos poucos que ainda vivem no concelho, já os turistas são brindados à chegada com enormes outdoors que deixam como proposta de visita um roteiro pelos museus. Ao todo são cinco os equipamentos culturais que fazem parte dessa proposta turística: o Museu Militar, no interior do Castelo, o Museu Ibérico da Máscara e do Traje, na cidadela, o Centro de Ciência Viva, o Museu Abade Baçal e o Centro de Arte Contemporânea. O Mensageiro propôs-se a visitar estes espaços e redescobrir a história da cidade e do concelho com o olhar anónimo de um qualquer cidadão.

Espaço de “fruição espiritual”

De três em três meses, mais coisa menos coisa, a artista residente do Centro de Arte Contemporânea, a pintora Graça Morais, “marca encontro” com o público transmontano e traz à cidade artistas ou obras que, de outra forma, não passariam por Bragança. Situado na rua Abílio Beça, o Centro de Arte Contemporânea nasceu da recuperação do histórico edifício onde antes estava o Banco de Portugal, a casa do Conselheiro Sá Vargas, homem ilustre que haveria de doar todo o seu espólio ao Museu Abade Baçal. O espaço, uma admirável obra de arquitectura da autoria de Souto Moura, vale a visita só por si: constituído por dois grandes núcleos, o edifício recuperado que é “casa permanente” de Graça Morais e um espaço novo, que acolhe exposições temporárias, o Centro ganha unidade através do pequeno jardim. Para a artista residente, a concretização do Centro de Arte Contemporânea representou a realização de um “sonho de adolescente”, como a própria já confidenciou publicamente. Natural de Vila Flor, Graça Morais completou o ensino secundário em Bragança, por força da interioridade que no interior do distrito não se esbate, mas se acentua. Para além do Museu Abade Baçal, mais vocacionado para a História da região, Graça Morais não dispunha em Bragança de mais nenhum equipamento cultural que lhe permitisse “matar a fome” de ver obras de arte. Para isso seria necessário esperar mais de duas décadas... Pensado como um “espaço de fruição espiritual”, o Centro de Arte é pontuado a intervalos com bancos que convidam os visitantes apenas a estar. E a ver. Porque a arte tem de ser vista e revista para que se possa gostar, ou não, e para que as pessoas “possam ser mais exigentes e mais abertas”.

A história de uma região em museu

Com o cunho de Francisco Manuel Alves, mais conhecido por Abade Baçal, o museu deve-lhe o nome que ostenta: grande parte do espólio foi recuperado pelo benemérito, um verdadeiro estudioso da região nordestina. Desde as salas das salas dedicadas aos objectos arqueológicos, testemunhos da ocupação romana no distrito, às salas da numismática ou aos desenhos inéditos de Almada Negreiros, o Museu oferece ao visitante uma verdadeira lição de História Portuguesa. Aqui podemos encontrar testemunhos da pré e proto história, ilustrados através dos diversos objectos das sociedades recolectoras e metalúrgicas. Ainda no primeiro piso encontramos várias peças do período romano, como cerâmica ou os marcos miliários. No segundo piso manteve-se intacto o que era o átrio do antigo Paço Episcopal, assim como a capela que hoje acolhe inúmeros objectos de arte sacra. Aliás, a arte sacra ou o mecenato ligado à Igreja marca todo o espaço museológico surpreendendo com peças do século XV, como a escultura da Virgem com o Menino, ou a imponente liteira do Bispo, dotada de casa-de-banho, do século XVIII. As ricas colecções de prataria, o mobiliário setecentista, a ourivesaria do século XVIII ou as faianças portuguesas são outras das peças que merecem atenção. A finalizar a visita, passamos pela sala dos pintores portugueses: Malhoa, Carlos Reis, Abel Salazar e até Almada Negreiros, com 70 desenhos inéditos, ocupam as paredes de todo o espaço. Estas obras estavam em arrecadação, por falta de espaço e, só depois da intervenção no museu ficaram disponíveis e acessíveis a todo o público.

Máscaras de Inverno e de Carnaval

Subindo pela calçada chegamos finalmente ao Museu Ibérico da Máscara e do Traje, anunciado ao longe por uma máscara gigante, em ferro, pendurada numa das paredes do recuperado edifício. Em plena zona histórica, o Museu da Máscara e do Traje, o único museu temático da cidade, abre as portas às tradições seculares do Nordeste Transmontano e que se repetem, com algumas variações, do outro lado da fronteira. O primeiro contacto é com as Festas de Inverno de Trás-os-Montes, festas que ainda hoje são realizadas em muitas aldeias do concelho de Bragança, Vinhais, Mogadouro ou Miranda do Douro, e que remetem para rituais ancestrais ligados ao culto da fertilidade e à “purificação e expurgação dos males”. Num segundo piso podemos apreciar como se faz a tradição do outro lado da fronteira, nomeadamente em Zamora, e constatar que, em tempos, o Nordeste Transmontano e a região de Castela e Leão estiveram unidas, mais que não seja pela cultura. Por fim, no último piso, a exposição é dedicada às Festas de Carnaval de Bragança, Lazarim e Zamora e aos artesãos locais que mantêm viva a tradição das antigas máscaras e dos coloridos trajes. Imperdível é depois a visita ao Museu Militar, no interior do castelo, um dos museus mais visitados do país. Mas, apesar de termos iniciado o roteiro pela manhã, resta-nos apenas meia hora, (o encerramento do Museu Militar é às 17h00). À pressa, vamos percorrendo as salas cujo acervo museológico remonta à época das campanhas militares efectuadas em África, nomeadamente Moçambique. A exposição das calças do Gungunhana, famoso chefe moçambicano que, na segunda metade do século XIX, detinha o segundo maior império nativo de África, serão, certamente, um dos objectos que mais interesse e curiosidade suscita, nomeadamente pelo seu tamanho. Com o tempo contado tentamos ainda visitar o Centro de Ciência Viva, incluído também no Roteiro dos Museus, mas essa visita terá de ficar para um próximo passeio.

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1 Comentário Feed

Carla · escreveu em 04-07-2009 às 21:03:22
Parece-me que muitas vezes os brigantinos não visitam estes espaços porque não são divulgados nos jornais locais, caso do Mensageiro, que salvo esta reportagem, reserva um minúsculo espaço (a agenda) para divulgação de eventos culturais. Deviam repensar a quantidade de informação dedicada à cultura.
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