. // A fé não é um atestado de ignorância Por: / Secção: Editorial / 13-12-2008 · 1 comentário(s) Imprimir Enviar a um amigo
.Para uma mentalidade exageradamente racionalista, não é fácil aceitar, quanto mais entender, uma perspectiva dogmática da Igreja em relação a determinados conteúdos da fé cristã. Entendendo o Dogma como uma verdade imposta, que não se pode investigar nem questionar, não é fácil de aceitar nem se pode recolher toda o seu verdadeiro sentido. Neste contexto os cristãos seriam um conjunto de pessoas que, perante as formulações dogmáticas suspendem a inteligência e demitem-se de pensar, aceitando de forma acrítica o que a Igreja lhes impõe. De facto, em muitas circunstâncias, os crentes comportam-se dessa forma, aceitam as coisas da religião sem as contestar, alicerçados numa tradição transmitida de pais para filhos e sem se preocuparem minimamente em encontrar razões para a sua fé. Não é esta a verdadeira fé, nem a fé evangélica. Nesta semana celebrámos um dos últimos Dogmas definidos pela Igreja. O Dogma da Imaculada Conceição. Foi há pouco mais de 150 anos que o Papa Pio XI proclamou solenemente essa verdade da fé. Não foi uma imposição do papado à Igreja. Mas foi uma vivência dos fiéis que se impôs à Igreja Instituição. Mais de 200 anos antes da proclamação dogmática da concepção da Virgem Maria sem mácula do pecado, em Portugal, celebrava-se e acreditava-se nessa verdade, tendo mesmo os reis de Portugal abdicado de usar coroa para fazer da Imaculada Conceição a Rainha de Portugal. Mas a fé e a devoção à Imaculada iniciou-se muito antes na vida da Igreja. Vem desde o século XIII, sendo os franciscanos os seus principais promotores. Tal como aconteceu com a Imaculada, também os outros dogmas se foram impondo à Igreja que não se demite de continuar a entendê-los cada vez melhor, embora aceite que não poderá compreender todo o seu conteúdo e nunca o conseguirá explicar e provar de uma forma puramente racional ou científica. Raramente alguém tem dúvidas acerca do amor de uma mãe pelo seu filho. Mas todos os filhos que nele acreditam, sem qualquer dúvida, dificilmente o podem provar cientificamente. Somente, podem apresentar sinais e algumas provas, ainda que bastante subjectivas e bem pouco científicas. Também os fiéis podem apresentar alguns acontecimentos, sinais ou testemunhos que lhes permitiram desenvolver uma fé verdadeira e consciente no Deus de Jesus Cristo, mas dificilmente encontrarão provas irrefutáveis da sua existência. Maria, escolhida por Deus para ser a Mãe do Salvador, foi preservada do pecado, mas não foi dispensada de se interrogar e encontrar razões para a sua fé. É essa a perspectiva evangélica. Quando o Anjo lhe anuncia que vai ser a Mãe de Jesus, ela interroga-se e coloca as suas questões: Como será isso possível? A resposta do Anjo propõe que a Deus nada é impossível e leva-a a interpretar a gravidez da sua prima Isabel como um sinal dessa omnipotência divina. Mesmo assim, como se poderá verificar no resto do Evangelho, Maria continua sem compreender totalmente a missão que Deus lhe confia, mas acredita e disponibiliza-se para ser a Escrava do Senhor. Maria é um modelo para todos os cristãos, que não se devem demitir de continuamente buscarem razões para a sua fé, mas com a humildade, mesmo envoltos em muitas dúvidas, continuarem a confiar e a acreditar no Deus que pode superar e transcender sempre todas as nossas expectativas.

1 Comentário
"Raramente alguém tem dúvidas acerca do amor de uma mãe pelo seu filho. Mas todos os filhos que nele acreditam, sem qualquer dúvida, dificilmente o podem provar cientificamente. Somente, podem apresentar sinais e algumas provas, ainda que bastante subjectivas e bem pouco científicas."
"Sinais e algumas provas"? Mas que raio! É precisamente por haver muitas provas que ninguém tem dúvidas. Todas a pessoas sabem, constatam inclusive, que todas as Mães fazem os possíveis e impossíveis pelos seu filhos (salvo excepções -mas também não é a estas que se refere o autor).
Mas como é possível fazer este tipo de comparação: a mãe e o filho existem, e é a partir desse facto que se conjectura. Agora usar esta analogia para fazer-nos crer, ou justificar, que existe algo que nunca ninguém viu e que devemos ter fé nele...
É precisamente por este tipo de raciocínios e exposições que eu acho que a fé é sim um atestado de ignorância!